Senhoras e senhores, apresento a vocês uma garota politicamente incorreta. Sou V., tenho míseros 17 anos de vida muito mal vividos e não faço nada da vida. Isso mesmo, nada. Não estudo, não trabalho, não sou voluntária. Minha vida se resume a sair com as amigas, namorar, ficar no computador e assistir aos deploráveis programas de fofoca que passam todas as tardes na TV aberta. Porém, há uma razão até justa para a vida boa que venho levando: começarei o curso de medicina no segundo semestre. Nunca sonhei em salvar vidas, revolucionar o atendimento no SUS ou ser médica da ONU. Só escolhi esse curso porque adoro biologia e química e não vejo a hora de ver um defunto (deve ser muito legal abrir um).
Assisto novelas, mas só quando não tenho nada melhor pra fazer. Minhas personagens preferidas geralmente são as vilãs, porque elas são muito mais divertidas. Ainda lembro de uma cena de Cobras e Lagartos, em que a Leona berrou ao lindo casal Duda e Bel: “Eu vou acabar com essa felicidade de comercial de margarina!”. Odeio comercial de margarina. Odeio as heroínas perfeitas da malhação, sempre bonitas, inteligentes, prestativas e ainda por cima humildes – algo supra-real. Elas me irritam profundamente.
Adoro clipes. Meu preferido é Smile, da Lily Allen, quando ela se vinga do ex-namorado que a traiu colocando laxante no café dele. Também gosto de Since You Been Gone, em que a Kelly Clarkson destrói a casa de, veja só, um desses casais “comercial-de-margarina”.
Eu como mal, mal pra caramba. Detesto vegetais, amo cachorro-quente e sanduíche do McDonald’s. Eu não apenas sou totalmente a favor do McDonald’s, como também faço generosas doações ao Instituto Ronald McDonald – doações que raramente ultrapassam cinqüenta centavos muito bem investidos.
Não uso roupas de marca, não sou uma patricinha, se isso que você está se perguntando. Mas não tenho nada contra a Nike, e, se encontrasse um modelo de tênis que me agradasse e que eu pudesse pagar, não pensaria nos milhares de empregados que são explorados na Índia antes do compra-lo.
Vamos ao que interessa, a visão política: extrema direita. Com perdão da expressão, fodam-se Che Guevara, Mão Tsé-Tung, Karl Marx, Lênin e todos esses líderes da revolução. Eu não acredito em pessoas boazinhas demais, que dizem que só querem o bem do povo.
Tenho nojo de ativistas, porque o discurso deles, honestamente falando, é um porre. Não agüento mais expressões clichê, como “aquecimento global” e “impacto ambiental”. Não fui eu que mandei a Inglaterra usar termoelétricas durante a Revolução Industrial – a não ser que admitamos a teoria da reencarnação, mas isso já é outra discussão. Então do que eu sou culpada? Por que eu sou obrigada a ouvir sermão dos meus professores e ouvir conselhos ridículos do tipo: “desligue a torneira ao escovar os dentes, economize folha de papel”? Por acaso eles acham que meus pais são tão imprestáveis que não me ensinaram isso na infância?
Antes de me chamar de reacionária-burguesa-filhinha-de-papai, não me julgue. Se não sabe da minha origem, fique quieto. Talvez eu seja assim porque nasci com mau-gênio. Mas eu garanto a você que sou uma filha obediente, uma boa aluna, que sempre fez as tarefas de casa, e uma amiga fiel. Pode acreditar, há uma razão pela qual eu sou desse jeito: trata-se da filosofia do politicamente incorreto.
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Poema em linha reta - Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)
Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.
Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...
Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,
Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?
Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.
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Um comentário:
Olá, Doutora! Nosso blog está lindo!! Você é muito boa decoradora! hehe...
Até amanhã já me pronuncio oficialmente como colaborados deste blog...
Espero que consigamos levar pra frente esse blog por anos e anos!
Beijos!
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