sábado, 10 de março de 2007

Uma histórinha

O tema da redação pra segunda-feira.

Imagine-se em 1500, mas com a bagagem de conhecimentos do século XI, participando deste episódio relatado por Caminha:

Viu um deles [índios] umas contas de rosário, brancas; acenou que lhas dessem, folgou muito com elas, e lançou-as ao pescoço. Depois tirou-as e enrolou-as no braço e acenava para a terra e então para as contas e para o colar do capitão, como que dariam ouro por aquilo. Isto tomávamos nós assim por o desejarmos; mas se ele queria dizer que levaria as contas e mais o colar, isso não queríamos nós entender, porque não lho havíamos de dar.

É uma narração de 25 a 30 linhas. Bem, eu me empolguei. Vou publicar minha empolgação, porém, terminei faz minutos, então desculpa-me qualquer erro ortográfico, semântico, sei lá, qualquer um.



Dezoito anos, pardo, cabelos escuros e compridos, alguma penugem no rosto, musculatura definida. Vestia roupas antigas, bem antigas. Certo dia, ele pôs saio, botas, luvas e foi à praça da cidade, e lá ficou falando e falando, como se estivesse encenando uma peça, sozinho. Quando não estava a fazer algo visto como louco, com certeza estava em casa, lendo seus livros. Os moradores de Bandeiras sempre tinham o que fofocar de Diogo: quando não era por algo que tinha feito, era por não ter feito nada. Sempre o principal assunto daquela pequena cidade.

Seu pai, Jorge Álvares, trabalhava na cidade vizinha, Cercados, e todo final de mês lhe trazia um novo livro. Da última vez, o invulgar Luís de Camões, numa coleção com lírica, épica, teatro e cartas alegrou enormemente Diogo.

O céu estava para brigadeiro, porém, enfornado no quarto escuro, com apenas a lâmpada do abajur acesa, Diogo iniciou sua aventura em Camões. Terminava a sétima página aos bocejos quando ouviu trovões e sentiu o chão tremendo. Correu à janela, abriu. Viu o nada. Mas ouvia gritos, e barulho forte de água. Seus olhos se acostumaram e ele pôde ver, naquela noite tenebrosa, um infinito mar. Seu coração disparou. Correu em direção à porta, que levava à sala de estar, mas, ao abrir, viu um estreito corredor; seguiu por ele até uma escada. “Para cima ou para baixo”, pensava. Foi para baixo. Era certamente o convés. Marujos corriam de um lado para o outro, segurando facões, cordas. O mar estava muito violento, e Diogo se apoiava numa coluna de madeira para não cair. Algo bate na sua cabeça, era o pé de um marinheiro que descia do mastro: “Saia daí homem e faça algo!”. Nesse instante a tormenta se intensificou e Diogo, que tinha soltado do mastro, caiu e rolou, batendo a cabeça na porta de um saguão.

Acorda, homem, acorda!”. Diogo abriu os olhos devagar. Já estava dia e a tempestade foi embora. Um dos três homens que lhe cercavam disse: “E como está essa força?” Antes de conseguir responder, alguém lá de fora gritou como se grita pela vida: “Terra à vista!” – e todos saíram correndo para ver. Até Diogo, quase sem dores.

Parecia uma simples ilha. Mas com a aproximação, viu-se que era maior do que se imaginava. Todos observavam em silêncio absoluto, por exceção de um homem, sentado num banco na parte mais alta do convés, que escrevia num diário tudo que via; ele olhava e escrevia, olhava e escrevia. De repente, surgiu no meio de todos, um homem forte e robusto, com chapéu enfeitado com uma pena. “Vamos atracar, chegamos.”

Prepararam os barcos e Diogo foi colocado num dos primeiros, junto do robusto, que lhe parecia ser o capitão, e do escritor, que não largava a pena e a tinta por nada. “Neste dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! Primeiramente dum grande monte, mui alto e redondo; e doutras serras mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos: ao monte alto o capitão pôs nome - o Monte Pascoal e à terra - a Terra da Vera Cruz” , parou por um instante e perguntou: “Gostou capitão Cabral?” - “Muito bom, caro Caminha”, respondeu, sem prestar muita atenção, voltado para a linda terra, e pensando no que faria.

O marujo da frente empurrou o barco pra areia e todos desceram. Sem mais, sem menos, pessoas surgiram do meio do mato, que fazia fronteira com a areia uns 30 metros pra dentro. Estavam nus e pintados. Os homens apareceram com bastões de madeira e arco-e-flechas, e as mulheres com cestos cheios de frutas e verdes, e crianças ao lado delas. Foi somente nessa hora que Diogo entendeu o que se passava. De alguma maneira, ele voltou ao passado e estava revivendo o descobrimento do Brasil. Sempre ouvia na escola seus professores criticando como moralistas os europeus pois estes tanto enfatizaram o fato de os índios não usarem roupas, mas ele próprio, naquela situação, ficou constrangido. Não era comum. Mas não queria ser visto como moralista, então fingiu ser absolutamente normal existirem pessoas que não usavam vestimentas. Os europeus, ao contrário, foram mais sinceros; espantaram-se notavelmente. As indiazinhas queriam tocá-los, pois aquelas roupas eram tão bonitas. E os índios queriam ver seus barcos, pegar suas armas. Os índios mais velhos ficaram de longe, observando. Logo os portugueses perceberam que eram pessoas amistosas.

Uma índia aproximou-se de Diogo e disse algo que ele não entendeu. Chegaram outros índios e o garoto ficou cercado. Cabral aproximou-se e perguntou se estava tudo bem, e Diogo disse que não sabia. O capitão segurou o colar de uma silvícola e percebeu que era ouro! Começou a perguntar, e fazer mímicas, afinal, queria saber donde eles tinham pegado aquela preciosidade. Diogo o enfrentou: “Por que quer o ouro? Por que, por motivos econômicos, vai destronar os índios da terra que lhes pertence ?”“Meu jovem, esta terra acaba de nos ser concedida. Nós chegamos primeiro. Tenho certeza de que aqui cabem portugueses e índios, então esses índios podem continuar a viver num espaço, e nós vivemos em outro. Vamos construir uma grande civilização aqui, e seremos sempre lembrados como seus pais. Mas se essa civilização nos negar, serão todos castigados por Deus, pois o que haveriam de ser deles, se não fossem nós? Quantos morreram, e quantos ainda morrerão, para que esse mar fosse, enfim, nosso?”. Diogo respondeu: “Mas por que agredir a cultura deles?” , ao que Cabral retorquiu: “Se a cultura deles for mesmo forte, resistirá ainda muito tempo! Mas não ache que para sempre! Egito caiu, Grécia caiu, Roma caiu, Portugal um dia cairá também, e todos cairão. Não chore como uma criança, achando que a vida em terra é um paraíso, pois sem guerra não crescemos, não cumprimos nossos papéis de homens, antes que sejamos mortos”.

Um pouco mais tarde, Diogo via a margem plácida da água de um rio que desembocava no mar, e ouviu um grito de um marujo chamando Cabral. Correu para lá e viu que todos os índios estavam maravilhados com um espelho. Cabral percebeu logo que podia usá-lo para conseguir ouro. Chamou dois índios e mostrou um colar de ouro, oferecendo o espelho. Quando os índios quiseram pegar o espelho, ele evitou, mostrando o ouro. Os índios eram espertos, como se havia de notar, e saíram rapidamente pro meio do mato. Alguns portugueses, inclusive Cabral, foram atrás, e até o Diogo. Depois de uma cansativa caminhada, chegaram ao leito de um rio, onde era possível ver o ouro incrustado nas pedras, na terra.

Aos poucos, Diogo foi revendo toda a história, corrigindo o excesso e os enganos de seus professores e livros. Percebendo também que não existia a total pureza, a total santidade, em nenhum dos dois lados. Os índios não eram tão ingênuos, e os portugueses não eram malvados. Percebeu que para a maioria dos
portugueses, de fato, a religião não era pretexto, mas sim o essencial. Percebeu que, ao se amarrar a uma ideologia, a história acaba sendo mal interpretada.

Também nunca conseguiu voltar para sua casa em Bandeiras. Ficou preso no passado, mais ou menos como ele costumava fazer no seu quarto e na sua vida. Também nunca contou para ninguém de sua história; seria certamente taxado de louco ou bruxo, tanto pelos portugueses como pelos índios. Aprendeu a língua dos nativos e recebeu um nome especial, uma homenagem pela amizade que cultivou entre todos. Fora chamado Caramuru, e sua história estava apenas começando.


2 comentários:

Doutora disse...

Em primeiro lugar, parabéns por não ter escolhido a proposta das memórias de um sapato. TODO MUNDO faz essa redação (e quase sempre fica tosca).
Eu também me empolguei nessa redação... tive cortar vários trechos para fazê-la caber em trinta linhas. Só que daí ficou palha, pq nao deu pra fazer o final que eu queria...

"Sempre ouvia na escola seus professores criticando como moralistas os europeus pois estes tanto enfatizaram o fato de os índios não usarem roupas"
Escrito especialmente pro Gastão, certo? Quando ele deu falou isso logo na primeira aula, quase mandei ele tirar a roupa, já que isso não fazia diferença. Mas achei que a visão ia ser grotesca demais e preferi ficar quieta.

"Quantos morreram, e quantos ainda morrerão, para que esse mar fosse, enfim, nosso?"
Isso não te lembra um poema? ;)

Sr. Segredo disse...

Para fazer a do sapato eu teria que ser muito melhor do que de fato sou! Senão, as chances de ficar um lixo são muito grandes.
Ainda nem cortei ainda, nem fiz nada. E nem sei se vou fazer. SErá tão importante entregar a redação?

Escrito sim para o Gastão , e para quase todos os outros professores de história que já tive.
Ainda bem que você não o mandou fazer aquilo, porque iria le traumatizar tanto que talvez nunca mais gostasse de homem na vida..rs

Pensado em nosso querido Pessoa, com certeza, que escrevi aquilo ali. Afinal, ele foi um dos poucos ( e olha que é do século XX ) que entendeu esse momento da história...
Beijos