"Turistas" mostra o que é que o Brasil tem
por Felipe Atxa em 06 de março de 2007
Se "Turistas" é um mau filme, isso nada tem a ver com a representação que faz do Brasil e dos brasileiros. Seus defeitos são eminentemente cinematográficos: mis-en-scéne fraca, efeitos especiais pobres, suspense mal construído. Diferentemente de "O Albergue", por exemplo, cuja construção dramática é toda voltada para aumentar o impacto do desfecho, em "Turistas" sabe-se desde o início muito bem o que irá acontecer. E, quando acontece, é confuso, anti-climático e dialogado demais. O enredo briga com as imagens, não se integra a elas.
Por outro lado, o filme (apedrejado por supostamente prejudicar a imagem do país lá fora) é bastante fiel ao retratar o Brasil e seus habitantes. Fiel em duas perspectivas diferentes: à realidade e à própria representação que o brasileiro aprendeu a fazer de si mesmo, através inclusive de seu cinema "engajado". Em "Turistas", o Brasil mostrado é o periférico: nele há motoristas imprudentes dirigindo como loucos; crianças cometendo delitos impunemente; ausência do poder policial na favela - tudo isso convivendo harmoniosamente com uma apreciação hedonista da vida, celebrada através do sexo, da música (funk e samba-rap, nada das costumeiras bossas-novas para inglês ver) e da bebida alcoólica.
Caso um estrangeiro que não conhecesse o Brasil quisesse saber mais sobre o país, assistir a "Turistas", a "Cidade de Deus" ou a 5 minutos de publicidade na TV faria exatamente o mesmo efeito: ele veria um país desmoralizado, atemorizado pelo crime, mas que ao mesmo tempo parece estar apenas preocupado com nudez e cerveja. O mal que "Turistas" poderia fazer à nossa auto-estima é, na pior das hipóteses, igual àquele cometido por nossos publicitários ou cineastas: o Brasil projetado por eles virou reflexo desse arremedo de país, cujo maior arroubo de nacionalismo é protestar contra um filmeco de segunda categoria, ao mesmo tempo em que se ignora, por exemplo, que o presidente da República compactue com os caprichos do mandatário de um país ainda mais inexpressivo como a Bolívia. Patético.
A "mensagem" do filme, se é que ele consegue propor alguma nesse sentido, consegue ir ao encontro do que pensam muitos dos intelectuais e patriotas que reclamam do filme, e é tão tola e oportunista quanto eles: a de que fomos usurpados por séculos, e de que toda vingança perpetrada contra esses visitantes estrangeiros é pequena diante de séculos de exploração. Gente como Ariano Suassuna deveria é encomendar o DVD com os extras de "Turistas"; sua visão medíocre de mundo é análoga à mediocridade do filme.
E, para quem acha que o Brasil ainda é um bom destino para esses turistas tolos e progressistas de chinelinho de dedo, que enxergam o Terceiro Mundo como um grande parque temático das misérias humanas, aqui vão alguns exemplos de visitantes estrangeiros assaltados, atropelados, esfaqueados ou mortos em nosso território. Visite-nos quem quiser, sob sua conta e risco.
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Comiseracine – os filmes que o brasileiro paga para não ver
por Felipe Atxa em 21 de março de 2007
O Cinema Brasileiro é, basicamente, um cinema de chorões. Os cineastas choram antes de fazer os filmes, reclamando que faltam incentivo público, verbas etc.; choram durante a realização, alegando que o orçamento é pequeno para suas pretensões artísticas; e, finalmente, choram com os filmes acabados, protestando contra o mercado dominado por Hollywood ou a insensibilidade da platéia a seu esforço.
Choram, a bem da verdade, de barriga cheia. Desde o advento das leis de incentivo, a produção cinematográfica brasileira foi contemplada com algo próximo a 1 bilhão de reais em incentivos diretos ou indiretos. O valor seria mais do que suficiente para criar e manter ativa uma indústria cinematográfica em um país africano de pequeno porte, por exemplo, priorizando-se infra-estrutura e formação e reciclagem de técnicos. No entanto, apesar de toda essa montanha de dinheiro, o Cinema Brasileiro continua, mais de uma década depois da chamada "retomada", absolutamente dependente das verbas públicas para sobreviver. Se alguém fechar a torneira, nosso cinema (melhor dizendo, o cinema "deles") volta à estaca zero, ao lugar de onde nunca conseguiu sair: é o quinto cinema do continente, atrás do norte-americano, do canadense, do mexicano e do argentino.
Mas esse disparate não é suficiente. Foi preciso que se criasse uma forma de incentivar as produções que não encontra par em qualquer outra parte do mundo: o apoio público aos filmes brasileiros é o único existente que não cobra dos realizadores qualquer demonstração de desempenho, seja ele em bilheteria ou repercussão, digamos, "cultural". Somente no Brasil é possível, por exemplo, se conseguir 5 milhões de dólares em verbas públicas, fracassar retumbantemente com o filme pronto e, imediatamente, já emendar outra produção, novamente com dinheiro público, tão ou mais cara que a anterior. Entre os jornalistas "especializados na área", ninguém escuta nada, ninguém diz nada. Diferentemente do que acontece na França ou na Espanha, por exemplo, onde o desempenho de um filme anterior é critério direto para obtenção de verbas para o próximo, no Brasil basta ter acesso a uma meia dúzia de contatos tradicionais para que se consiga capitalizar suas produções eternidade afora. Muita gente desconhece que, por bem ou por mal, é "sócia" desses filmes, embora só seja chamada a participar dos prejuízos. Para saber quanto cada produção aquinhoou em dinheiro público, bem debaixo de nossos narizes, basta acessar o site da Agência Nacional do Cinema. Clique em Espaço do Usuário e escolha Consulta de Projetos. A partir daí, basta digitar o nome de um filme brasileiro qualquer para descobrir quanto em dinheiro público foi aplicado na produção.
Uma pesquisa rápida permite descobrir, por exemplo, que a superprodução "Gaijin – Ama-me Como Sou" captou através do incentivo fiscal 4.107.177,03 para sua produção, mais 3.575.407,45 para seu lançamento e distribuição. Seu desempenho de bilheteria, contudo, foi pífio: pouco mais de 50 mil bilhetes vendidos. A respeito disso, a Folha de S.Paulo publicou em seu caderno Ilustrada de 29 de agosto de 2006:
"No mercado de cinema, é comum reinvestir a renda obtida na bilheteria em mais publicidade, com a meta de impulsionar o lucro do filme nas etapas seguintes - DVD e televisão. (...) A estratégia vale, é claro, para filmes que tenham feito sucesso nas salas de cinema, a primeira plataforma de lançamento. Não foi esta a experiência de "Gaijin - Ama-me Como Sou" (2005), de Tizuka Yamasaki, que obteve R$ 10 milhões e teve 52 mil espectadores. Yamasaki prepara as filmagens de "Amazônia Caruana", orçado em R$ 10,4 milhões”.
Como se vê, no Cinema Brasileiro, um fracasso impulsiona outro, visto que a capacidade de produção está relacionada apenas e diretamente com aquela de captar recursos junto, especialmente, às estatais e concessionárias de serviços públicos. Mas ele não vive apenas de fracassos épicos – há também aqueles, digamos, mais "intimistas". Quando uma produção como "Antonia", de pouco mais de 2 milhões de reais, dá com os burros nágua na bilheteria, a grita é geral: culpa do Stallone, da classe média, do preço dos ingressos. Ninguém pára para pensar que o filme talvez tenha fracassado simplesmente porque era ruim, ou ninguém queria vê-lo. Sobre isso, a mesma Folha de S. Paulo publicou em 12 de março de 2007:
"O filme de Tata Amaral estreou nos cinemas há pouco mais de um mês e alcançou, até o último dia 4, 75 mil espectadores. Número abaixo do necessário para cumprir a expectativa de um público de 500 mil pessoas na carreira do filme. "Não é o que a gente esperava", admite Tata. Bruno Wainer, da distribuidora Downtown Filmes, concorda: "Obviamente está muito aquém do que a gente achou que o filme renderia". "Antônia" era a menina-dos-olhos da Downtown para este ano. "A gente fez uma aposta ousada e, nesses casos, ou se ganha ou se perde", diz Wainer. E o que fez a estrela de "Antônia" não brilhar no cinema? "Superestimamos o filme", avalia Tata. O longa foi lançado com 125 cópias. No mesmo fim de semana, "Rocky Balboa" estreou com 160 cópias e, até o último dia 4, tinha sido visto por quase 247 mil espectadores”.
Nesse caso, a surra foi dada por um pugilista de respeito: de fato, não há termo de comparação entre o filme de Rocky (que é muito bom) e o filme brasileiro (que é muito ruim). Uma amostra do desleixo com que o filme foi apresentado ao público pode ser conferido assistindo-se a seu trailer. Como se sabe, o trailer é o maior cartão de visita de um filme, e é piada corrente nos meios cinematográficos de que o trailer costuma ser melhor que o filme inteiro. No caso de "Antonia", chegou-se ao cúmulo de incluir uma cena em que uma das atrizes (Sandra de Sá, que, aliás, não chega a ser exatamente uma atriz) "engasga" ao dar seu texto (minutagem 1:15 do trailer), numa clara demonstração de que culpar a classe média ou Sylvester Stallone pelas mazelas de nosso cinema é, definitivamente, não conseguir "enxergar" a raiz do problema.
Junte-se a tudo isso a insuportável repetição de temas já devidamente explorados no passado ou, diariamente, pela televisão aberta: vida nas "comunidades", repressão militar, corrupção policial, movimentos sociais, e toda sorte de manipulação estética de esquerda – um pacote completo oferecido por esses milionários filmes brasileiros, via de regra pagos por exatamente aqueles que não querem vê-los na frente: no caso, os contribuintes brasileiros. O fracasso é certo.
Um dos supostos argumentos favoráveis ao subsídio aos filmes brasileiros é aquele que leva em conta a audiência das produções nacionais exibidas na televisão aberta, que cai por terra, contudo, ao percebermos que a audiência de outros programas e filmes (jogos de futebol, reality shows, programas humorísticos, novelas medíocres) é ainda maior e mais constante. E não há qualquer movimento no sentido de subsidiar essas atrações com dinheiro público, da mesma forma como se faz com os filmes nacionais.
Hoje, a única saída digna para resolver as distorções existentes no setor cinematográfico seria cortar todo e qualquer subsídio a fundo perdido e criar linhas de crédito como as existentes para outros setores da economia. Quer produzir um filme? Use dinheiro do próprio bolso ou peça empréstimo como em qualquer outro negócio. Pague o empréstimo com a renda obtida com o próprio filme ou fique devendo. A transformação seria sentida imediatamente: muitos filmes ruins de hoje passariam, "magicamente", a custar um quarto do orçamento da noite para o dia; outros filmes ruins restantes deixariam simplesmente de ser feitos; e floresceriam filmes de melhor qualidade, feitos a partir de então se pensando em sua aceitação, nacional e internacional. E todos os brasileiros que pagam pelas produções, mas não as assistem, sentiriam diminuir o peso em suas costas, livrando-se de sustentar uma pequena casta de 100 ou 200 pessoas que, há quase 40 anos, vive de fazer filmes ruins com o dinheiro dos outros.
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O império contra-ataca
por Felipe Atxa em 04 de abril de 2007
Após a publicação pelo Mídia Sem Máscara do artigo "Comiseracine – os filmes que o brasileiro paga para não ver", no dia 21 de março de 2007, quem acessou o site da Ancine – Agência Nacional do Cinema, na tentativa de se informar a respeito de quanto em renúncia fiscal tem sido aplicado em cada filme brasileiro produzido nos últimos anos, teve uma curiosa surpresa: o serviço, que sempre esteve claramente disponibilizado no site, agora aparece escondido em seu conteúdo.
Até a publicação do artigo, era possível digitar http://www.ancine.gov.br/ e, depois, clicar em Espaço do Usuário e escolher Consulta de Projetos para acessar diretamente o sistema e descobrir quanto cada produtora ou filme recebeu em dinheiro público.
Agora, não existe mais essa opção. O link que permite acessar os dados dos projetos e, conseqüentemente, qualquer cidadão descobrir quanto em verbas públicas foi destinado a cada filme especificamente (e não ao setor como um todo), foi ocultado no site, embora continue existindo.
É interessante observar uma pequena diferença entre as opções de acesso oferecidas na opção Espaço do Usuário e aquelas existentes no Mapa do Site.
Opções constantes agora no menu em Espaço do Usuário:
Ouvidoria
Fale Conosco
Passo a Passo Projetos - SDI
Perguntas Freqüentes
Consulta Pública
Manual Filmar no Brasil
Manual do Produtor
Manual de Solicitação de CPB
Manual Glossário
CPB
Agora, compare com as opções correspondentes no Mapa do Site:
Ouvidoria
Fale Conosco
Passo a Passo Projetos - SDI
Perguntas Freqüentes
Consulta Pública
Manual Filmar no Brasil
Manual do Produtor
Manual de Solicitação de CPB
Manual Glossário
CPB
Consulta de Projetos
Como se pode ver, apenas o link que leva ao banco de dados dos projetos não está presente na barra de acesso direto.
Apesar da modificação no site da Ancine, ainda é possível acessar o sistema que permite visualizar as informações financeiras de cada projeto, ou seja, quanto cada um foi habilitado a captar em dinheiro público, quanto já efetivamente captou e quanto ainda poderá captar. Basta digitar http://app1.ancine.gov.br/ancine/sistema/exec/proj_audio1.cfm e iniciar a pesquisa.
Um exemplo: é acessando esse sistema que descobrimos que a produção "Estorvo", baseada no romance de Chico Buarque de Holanda, custou aos cofres públicos a bagatela de R$ 3.731.760,07, tendo rendido depois nas salas de cinema apenas R$ 62.787,20, segundo o SEDCMRJ. Da mesma forma, ficamos informados de que "Cafundó", a superprodução dirigida por Paulo Betti, custou aos bolsos do contribuinte inacreditáveis R$ 3.920.568,00, tendo faturado nos cinemas apenas R$ 152.583,00. Mas nada se compara ao estranho caso dos filmes baseados em livros do roqueiro e escritor Tony Belloto, egresso da aparentemente finada banda Titãs. A primeira produção baseada em seu romance homônimo "Bellini e a Esfinge" obteve em renúncia fiscal R$ 1.939.531,59, mas foi um fracasso nas bilheterias, tendo arrecadado somente R$ 360.378,00 em 2002. A despeito disso e, contrariando qualquer sistema lógico conhecido, os mesmos produtores foram habilitados a captar outros 4 milhões de reais para uma nova adaptação de um livro de Tony Belloto, intitulado "Bellini e o Demônio". Desse total, já foram integralizados mais de 1 milhão de reais. Um resumo da situação, para quem ainda não entendeu exatamente o que se passa: uma produtora adaptou um livro de Tony Belloto para o cinema; a adaptação foi um fracasso de público (e não se pode dizer que "Bellini e a Esfinge" tenha exatamente contribuído para a evolução da linguagem cinematográfica). Ainda assim, essa mesma empresa foi habilitada pelo governo a fazer uma nova produção, adaptando um outro livro de mesma autoria, potencialmente ainda mais cara que a primeira. Todas as somas envolvidas são recursos públicos oriundos de renúncia fiscal – uma espécie de "continuação" de um fracasso cinematográfico, fato pitoresco dentro da História do Cinema. E enquanto tudo isso se passa, debaixo de nossos narizes, o chamado "jornalismo especializado" prefere patrulhar o que Mel Gibson faz com seu próprio dinheiro.
É de se temer, todavia, que novas alterações no site da Ancine possam tornar ainda mais complicado o acesso a essas informações que são do interesse de todo contribuinte brasileiro. Convêm lembrar, ainda, aos leitores e demais interessados, que a Constituição da República Federativa do Brasil assim determina, em seu artigo 5º, inciso XXXIII:
"Todos têm direito a receber dos órgãos públicos informações de seu interesse particular, ou de interesse coletivo ou geral, que serão prestados no prazo da lei, sob pena de responsabilidade, ressalvadas aquelas cujo sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado".
Em se tratando de Cinema Brasileiro, continua valendo a máxima de esperar para não ver – e pagar, mesmo sem jamais ter visto.
sábado, 7 de abril de 2007
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